“A gente vira e mexe se depara com posts mentirosos, fake news ou chamadas apelativas que questionam: ‘o Nubank vai falir?’, ‘o Nubank está falindo?’, ‘o Nubank vai sair do Brasil?’ ou ‘Banco Nubank faliu?’. A resposta para todas essas perguntas é não”, declarou o banco digital.
As especulações aumentaram após o Banco Central decretar, na quarta-feira (21/1), a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, controladora do Will Bank e ligada ao Banco Master. A fintech atendia cerca de 12 milhões de clientes e atuava nos segmentos de cartão de crédito, empréstimos e investimentos. No último ano, movimentou aproximadamente R$ 7,5 bilhões e mantinha cerca de 1,1 mil funcionários.
Antes mesmo da decisão oficial, a Mastercard já havia suspendido os cartões do Will Bank. Com a liquidação, todos os cartões foram cancelados, impossibilitando seu uso. Os recursos dos clientes, no entanto, contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que cobre valores de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, conforme as regras vigentes.
Estimativas indicam que o impacto da liquidação pode chegar a R$ 6,5 bilhões para o FGC, considerando os depósitos a prazo registrados pela fintech em setembro de 2025. Ainda assim, o valor final dependerá do cálculo individual de cada cliente. Especialistas orientam que os correntistas acompanhem apenas comunicados oficiais e mantenham o pagamento de suas obrigações em dia.
Com a retirada da empresa do mercado, as operações são interrompidas e os investimentos ficam congelados. Um liquidante é nomeado para avaliar ativos, dívidas e créditos da instituição. Apesar disso, contratos seguem válidos. Como explica o especialista André Franco: “A fatura do cartão de crédito não é perdoada, tá registrado no sistema financeiro nacional. Então, o não pagamento vai causar inadimplência e você ter ali a sua conta colocada no Serasa e no SPC.”
Ao contrário do que dizem, Vélez leva Nubank, império de US$ 82 bi, a nova expansão global
Inside The NuBank Headquarters As Company Surpasses 100 Million Clients - © Fotógrafo: Jonne Roriz/Bloomberg
(Bloomberg) -- A história favorita de David Vélez — que originou a segunda empresa financeira mais valiosa da América Latina — começa com uma porta blindada.
O ano era 2012, e Vélez, então aos 31 anos e sócio da Sequoia Capital, estava tentando abrir uma conta bancária em São Paulo. Após passar pela barreira de segurança em uma agência bancária, que depois compararia à de uma prisão, Vélez foi cercado por seguranças armados porque seu telefone celular disparou os alarmes do detector de metais.
Enfim autorizado a prosseguir, sua provação estava longe do fim. Meses de burocracia seguiram, incluindo múltiplas visitas ao banco, antes que a abertura da conta fosse aprovada.
Vélez se convenceu de que o sistema bancário brasileiro estava pronto para ser transformado.Quatorze anos depois, o homem que naquele momento ficou trancado do lado de fora agora detém as chaves do império. A fintech que criou, o Nubank, atende a 127 milhões de clientes, o que inclui cerca de 60% da população brasileira adulta, e está entre as empresas mais valiosas do país junto com o Itaú Unibanco e a Petrobras.
O colombiano de 44 anos — cujas investidas levaram sua fortuna a cerca de US$ 17,7 bilhões, de acordo com o Bloomberg Billionaires Index — agora está direcionando seu império rumo a novos destinos, incluindo alguns dos mercados bancários mais competitivos do mundo. Isso inclui os Estados Unidos, onde o Nubank acaba de receber a primeira aprovação no processo de obtenção de uma licença bancária.
“Foi uma bênção ser ignorado” pelos gigantes do setor, disse Vélez, cuja família deixou a Colômbia para fugir da guerra dos cartéis de drogas quando ele tinha oito anos. “Nos debruçamos sobre focar em nosso cliente, indo o mais rápido possível sem fazer muito barulho. E então, um dia, eles acordaram e nós éramos maiores que muitos deles.”
Ninguém mais ignora o Nubank. As ações negociam a múltiplos muito superiores aos dos bancos tradicionais, e o retorno sobre o patrimônio também fica acima dos rivais, chegando a 31% no terceiro trimestre. O Itaú Unibanco, que é a empresa financeira mais valiosa da América Latina, teve um ROE de 23,3% no mesmo período.
Múltiplos das ações do Nubank ficam acima de grandes bancos | Avaliação de mercado da fintech leva em conta crescimento maior - © FonteBloomberg
A estrutura de governança do Nubank confere a Vélez controle absoluto como acionista. Mas a expansão a novos mercados significa que o CEO caminha sobre uma linha tênue, e ele garante aos investidores que a empresa vê este passo como uma aposta futura, e não como a prioridade no curto prazo.
“Embora continuemos totalmente focados em nossos mercados principais no Brasil, México e Colômbia, este passo nos permite construir a próxima geração bancária nos Estados Unidos”, disse Vélez em um comunicado em janeiro, após o Nubank receber aprovação condicional para uma licença bancária nos EUA. Ainda assim, ele tem dito que as oportunidades nos EUA podem ser “transformacionais”.
Gustavo Schroden, analista do Citi, disse que o pedido de licença pelo Nubank no início do processo de expansão para os EUA serve para permitir que a companhia ofereça uma gama de serviços e garantias ao consumidor mais rápido assim que estiver pronta para iniciar a operação.
“Eles têm dito de forma clara que o pedido de licença bancária foi antecipado para corrigir um erro cometido no México, de demorar para pedir a licença e ter de esperar por dois anos”, disse Schroden em uma entrevista.
O analista Jorge Kuri, do Morgan Stanley, disse em um relatório de novembro que, por enquanto, o Nubank quer assegurar uma licença bancária completa nos EUA enquanto “refina sua visão sobre onde suas vantagens competitivas — experiência do usuário, tecnologia, modelo de baixo custo e IA — podem ser empregadas da maneira mais eficiente”.
A expansão, que Vélez considera o “terceiro ato” de seu plano estratégico, acontece diante da abertura de uma janela de oportunidade nos EUA, em que o ambiente regulatório se tornou mais amigável aos negócios sob a administração Trump. Isso inclui aprovações para que cinco empresas da criptoeconomia se tornem bancos nacionais, e a decisão da PayPal de entrar com um pedido de licença em dezembro.
Campo de batalha
Ainda assim, pode ser uma aposta arriscada, dada a reputação dos EUA como um cemitério de fintechs estrangeiras. Nomes europeus como o N26 e o Monzo investiram milhões em busca de espaço no mercado americano antes de recuarem, diante de um ambiente em que regulações federais e estaduais se sobrepõem. Diferente do Brasil, em que o mercado é mais concentrado, os EUA são palco de uma disputa entre milhares de bancos, do JPMorgan Chase a pequenas empresas financeiras, todos brigando por espaço na carteira dos clientes.
O Nubank se tornou um sucesso através de um modelo de autosserviço e sem agências bancárias, que permitiu que atendesse aos clientes com um número de funcionários que equivale a 10% da média dos maiores bancos brasileiros. A aposta é que este modelo também funcionará nos EUA.
Mas Schroden, do Citi, disse que o mercado americano, por ser mais competitivo, pode levar a retornos mais baixos que os vistos no Brasil. “Não duvidamos que o Nubank vai ter uma carteira de crédito e lucro nos EUA, mas não sabemos se terá” a mesma rentabilidade vista no Brasil, afirmou ele.
As ambições globais da fintech não param nos EUA. Em 2024, o Nubank liderou uma rodada de investimento de US$ 250 milhões na Tyme Group, a operadora por trás do TymeBank na África do Sul e do GoTyme nas Filipinas, em um movimento que Vélez descreveu como uma expedição de aprendizado a respeito dos mercados asiáticos.
Mas obter licenças em cada mercado pode ser complexo. Para manter o ritmo, Vélez sugere que a companhia pode ir além de levantar negócios do zero, o que significa que expansões futuras podem depender de aquisições e parcerias estratégicas.
“Talvez no futuro haja oportunidades de fazer parcerias maiores”, e essa estratégia poderia ser aplicada de modo similar em outras geografias ao redor do mundo, ele disse.
Ainda assim, pode ser uma aposta arriscada, dada a reputação dos EUA como um cemitério de fintechs estrangeiras. Nomes europeus como o N26 e o Monzo investiram milhões em busca de espaço no mercado americano antes de recuarem, diante de um ambiente em que regulações federais e estaduais se sobrepõem. Diferente do Brasil, em que o mercado é mais concentrado, os EUA são palco de uma disputa entre milhares de bancos, do JPMorgan Chase a pequenas empresas financeiras, todos brigando por espaço na carteira dos clientes.
O Nubank se tornou um sucesso através de um modelo de autosserviço e sem agências bancárias, que permitiu que atendesse aos clientes com um número de funcionários que equivale a 10% da média dos maiores bancos brasileiros. A aposta é que este modelo também funcionará nos EUA.
Mas Schroden, do Citi, disse que o mercado americano, por ser mais competitivo, pode levar a retornos mais baixos que os vistos no Brasil. “Não duvidamos que o Nubank vai ter uma carteira de crédito e lucro nos EUA, mas não sabemos se terá” a mesma rentabilidade vista no Brasil, afirmou ele.
As ambições globais da fintech não param nos EUA. Em 2024, o Nubank liderou uma rodada de investimento de US$ 250 milhões na Tyme Group, a operadora por trás do TymeBank na África do Sul e do GoTyme nas Filipinas, em um movimento que Vélez descreveu como uma expedição de aprendizado a respeito dos mercados asiáticos.
Mas obter licenças em cada mercado pode ser complexo. Para manter o ritmo, Vélez sugere que a companhia pode ir além de levantar negócios do zero, o que significa que expansões futuras podem depender de aquisições e parcerias estratégicas.
“Talvez no futuro haja oportunidades de fazer parcerias maiores”, e essa estratégia poderia ser aplicada de modo similar em outras geografias ao redor do mundo, ele disse.
Mão na massa
O CEO, cujas credenciais incluem passagens pelo Goldman Sachs e pelo Morgan Stanley, controla cerca de 75% dos direitos a voto do Nubank através de uma estrutura de ações com super-voto detidas por sua holding, a Rua California. E está colocando a mão na massa, tomando de volta para si funções executivas que haviam sido repassadas a outras pessoas, para acelerar a tomada de decisão. A empresa também reduziu camadas de gestão.
“É um movimento que mostra ao mercado que o fundador está presente”, disse Bruno Diniz, sócio-fundador da Spiralem Innovation Consulting.
--Com a colaboração de Stella Ko, Filipe Pacheco, Daniel Cancel e Andy Clarke.
O CEO, cujas credenciais incluem passagens pelo Goldman Sachs e pelo Morgan Stanley, controla cerca de 75% dos direitos a voto do Nubank através de uma estrutura de ações com super-voto detidas por sua holding, a Rua California. E está colocando a mão na massa, tomando de volta para si funções executivas que haviam sido repassadas a outras pessoas, para acelerar a tomada de decisão. A empresa também reduziu camadas de gestão.
“É um movimento que mostra ao mercado que o fundador está presente”, disse Bruno Diniz, sócio-fundador da Spiralem Innovation Consulting.
--Com a colaboração de Stella Ko, Filipe Pacheco, Daniel Cancel e Andy Clarke.
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